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quinta-feira, 21 de abril de 2011

A dependência do fumo eu vivi de perto.

A dependência do fumo (eu vivi de perto)
Agora que a poeira está baixando poderei comentar alguns fatos noticiados pelos meios de comunicação. Li em jornais e escutei pessoalmente de amigos e pessoas desconhecidas que tinham uma visão bem ampla sobre as restrições da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as quais tratam da adição de substâncias viciantes no cigarro. Só para esclarecer: tais substâncias também são adicionadas em chocolates; o tabaco do tipo Burley é a principal fonte de tais aromatizantes. No início das discussões, ou melhor dizendo, da imposição de uma só verdade, foi dito que sem o tabaco a economia do Rio Grande do Sul nunca mais se recuperará. Francamente!

Por durante décadas se criou uma dependência tão grande do fumo na região que certamente, só de escutar falar na diminuição das plantações de tabaco, muitos produtores rurais já se assustam. Essa dependência eu vivi de perto porque meu pai foi plantador de fumo. Mas ele também plantava mandioca e milho para alimentar porcos, galinhas e algumas vacas leiteiras; não precisava comprar carne, frango e leite no mercado como vejo diariamente acontecer. É, tem produtor que vem lá do interior buscar o que poderia estar produzindo em sua propriedade. O pior de tudo é que no tempo em que meu pai plantava, se fazia tudo na base da capinadeira (um tipo de arado de tração animal com várias pás que se passava por entre as vergas do fumo, do milho, da mandioca, do arroz de sequeiro) e depois se capinava tudo. Lembro que chegava a levar semanas para deixar tudo pronto. Quando terminava tinha que iniciar tudo de novo porque as ervas daninhas estavam novamente crescendo. Agora tem a tal de enxada mágica, que se passa sem muito esforço e não se tem trabalho algum. Basta comprar um dessecante foliar, popularmente conhecido como “Round Up”(esse foi o pioneiro) e que pode ser aplicado em todos os tipos de lavouras. É óbvio que assim o agricultor teve um enorme ganho de tempo e ganhou facilidade para manejar outras culturas. Só que mesmo assim quer ficar dependente do fumo. Recentemente, um vereador disse numa rádio local que tais restrições ao tabaco só intensificariam o contrabando e que a economia candelariense é muito dependente do tabaco. Então legisladores? Ao invés de pedirem patrolamento para esta ou aquela localidade, que tal mudarem essa agricultura local com projetos simples e palpáveis. Dou uma sugestão a vocês: criem um projeto de lei que autorize o município a contratar um engenho agrícola e uma equipe que faça de graça os estudos de potencial de cada propriedade, para assim iniciar a diversificação de culturas.

Tem muita gente para defender o tabaco, mas nenhuma fala de seus reais interesses. Uns defendem os lucros de suas lojas, outros seus votos ou entidades. Até eu assinei o abaixo-assinado contra as restrições da Anvisa. Meu nome e meu CPF estão entre as 360 mil assinaturas. Não sei como, mas estão. A pressão das fumageiras para aumentar o número de fumantes é tamanha, que um amigo fez uma entrevista de emprego outro dia em que lhe perguntaram: “Mas porque você não fuma?”. Não é para menos. Não faz muito tempo, uma multinacional viu no Uruguai sua marca ter queda de 40% nas vendas. Naquele país, o ex-presidente Vásquez conseguiu implantar medidas que levaram 115 mil pessoas deixar de fumar, diminuindo em 17% o número de infartos do miocárdio. Só quem tem um ente querido na família doente ou já falecido sabe a dor e o sofrimento que o tabagismo pode causar através do câncer. O álcool é terrível, mas no outro dia ainda se tem esperança... Sei que é difícil toda essa mudança na agricultura, mas algum dia terá que haver. Também sei que em curto prazo e sem investimentos na propriedade nada bate o fumo em lucro e rapidez de produção. Por isso, diante das técnicas disponíveis, de nada adiantará substituir a cultura se não for criado também um órgão que apoie tecnicamente o pequeno agricultor.
 Quem sabe uma revitalização da Emater, que luta como pode para fazer crescer a diversificação de culturas. 

“Que Deus ilumine a intenção e o desejo de cada um e isso se torne força para deixar de fumar”.

Marcelo Coimbra da Silva Coordenador do Grupo de Apoio, Ações e Ideias Ambientais (Gaaia) de Candelária/RS